Reproduzo aqui um texto da Martha Medeiros, para esse dia que deve ser celebrado todos os dias.
POESIA OCULTA
Ruas
Reproduzo aqui um texto da Martha Medeiros, para esse dia que deve ser celebrado todos os dias.
POESIA OCULTA
Não será hoje que vai encontrar
o caminho de volta
e existem lugares em tempo algum visitados
por voce
como existem pessoas que sua mente
não experimentará....
ruas, parques, lagos, vagabundos, executivos, charmosos, pessoas
pessoas pelas cidades e sedutores monumentos nas esquinas e
palavras... não saberá...
aquela canção – presente – essencial - espalhou-se por
alamedas e sorriu sorrisos – lamentou momentos ..
mas voce nada escutou–
estava comigo, sem passado – sem futuro – ouvindo um
coração –
sem rumo e coragem -
dos próximos dias
dos nossos anos.
olho para o mundo
lapido meu canto
vergonha de ser humano
de ser
e estar – e estando humano
lapido coração
socando pipa no céu
descendo de bike a rua da penha
clicando paisagens
ouvindo voce...
lapido coração
quer leia drummond de madrugada
ou confronte - a tarde –
coração selvagem de clarice linspector
e incessantemente repita amor amor amor louco...
lapido coração
o dia vem nascendo – talvez domingo – talvez novembro
– talvez te faça feliz – ou gozar –
talvez leia ginsberg caminhando por estradas da terra do nunca
...
lapidando coração pelos dias
observo o mundo...
AO MEU PAI
Agora que você se foi e caminho pelos corredores da Puc – céu
paulistano nublado – e eu na minha louca existência ... penso
seus pensamentos quando preocupado com seus filhos, quando
martelando o orçamento do mês, as dívidas nunca terminar em sonhos
– quando seu coração no amor invisível deste mundo tão cruel
pousar em nossos olhos tão mansos – tão filhos – e eu
que ainda sou adolescente que ainda não constitui família penso nas
nossas manhãs até a banca de jornais comprar algo doce, segurando
suas mãos tão pai – e felicidades transbordando estrelas
loucas infantis nas minhas correrias e seu carinho... pousando
olhares para meus dias....
e mesmo assim acredito que voce saiu de uma grande
encrenca...
sim, um mundo conturbando doentio obcecado por máquinas e demônios
e anjos sobrevoando por alguns corações pulsantes....
e sussurando na sua última voz “para se cuidar” –
para entender que tudo é assim:
palavras em páginas que iremos ler e reler e mesmo assim não
aceitar –
de quando minha mãe o abraçou
de quando seu telegrama chegou a minha mente em Sampa “adorei
chegar vivo aos seus 21 anos”
e eu não entender seu amor, seu carinho entre máquinas que agora
vejo luminosas nestes corredores da PUC, entre acadêmicos e
aspirantes – janelas de um saber que se esvai – que se
vai como voce pai
que se foi – saudades profundas de um dia e um ano e
mês
que o poeta o filho escreveu.
Te amo Sr. Edwaldo
desconhecem a poesia, que pode estar na pétala -
no chumbo -
fora das academias -
desconhecem a poesia na vírgula - naquela última pessoa da fila
-
poemas não vem de poetas - dizem e insistem os doutores - e
insistem os recalcados com pouco cal
mas abraço a ventania que assopra as
palavras
a qualquer poeta - longe deste mundo catatônico e mecânico e
ditador
abraço a vida
e escrevo
não por insistir - nem
acertar ou errar
sei lá...
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