Reproduzo aqui um texto da Martha Medeiros, para esse dia que
deve ser celebrado todos os dias.
POESIA OCULTA
Não, hoje não vou trabalhar. Acordei tão cedo que consegui ver os
primeiros raios solares refletidos nos vidros dos edifícios, dando
a eles uma coloração rósea que deixou a cidade com uma cara
diferente da que ela costuma ter. Havia ali, naquele
instante, 6h47 da manhã, poesia. Uma poesia com a qual nossos olhos
desacostumaram. Hoje não vou trabalhar, preciso procurar por ela,
essa poesia oculta.
E sei que vou encontrá-la em todo lugar, bastando pra isso a minha
intenção. Começou. Já consigo vê-la na lombada dos livros que estão
dispostos na estante, vários, um ao lado do outro, compondo um
mosaico de cores e possibilidades. E vejo também na xícara de
cafezinho, a louça branca, ao lado do jornal aberto, em cima da
mesa, e um copo d´água, os três em colóquio matinal, clássicos do
cotidiano. Ali: a poesia da caixa de fósforos quietinha na cozinha.
Da mulher passando o batom na frente do espelho fingindo que não
está vendo que seu marido a espia escondido, ele próprio também
fingindo que já não se deslumbra com a cena.
A letra caprichada da criança na primeira folha do caderno. A fila
de táxi no ponto em frente ao parque, enquanto os motoristas
conversam e fumam aguardando os passageiros. O carrinho de
supermercado abandonado no meio do estacionamento depois que todos
se foram, esquecido na noite. Os cachos ruivos que estão no chão de
um salão de beleza mixuruca, onde alguém cortou o cabelo
e
se arrependeu. A poesia oculta não é tão oculta assim.
Um varal com roupas puídas, penduradas numa janela de um edifício
antigo. A torcida de um estádio explodindo ao ver entrar em campo o
seu time. Duas adolescentes de cabelos longos cochichando e
rindo à saída do cursinho. O olhar perdido da mulher dentro do
ônibus. Um guarda-chuva preto.
Sua amiga que piscou o olho pra você lá do outro lado da festa, o
afeto atravessando o salão e desviando dos convidados que
separam vocês duas. A chama da vela que balança porque você está
gargalhando. O casal que caminha na noite escura na beira da praia,
agasalhados e agarrados, achando que ninguém os vê. Um resto de
bolo dentro da geladeira.
O canhoto do cartão de embarque no fundo da bolsa. A almofada que
caiu do sofá da varanda por causa do vento. O vapor que embaçou o
espelho do banheiro depois do banho. A mochila em cima da cama da
sua filha. Seu filho dormindo.
A poesia é uma fatalidade do olhar. Basta um frame de segundo e ela
se revela, para então se esconder novamente atrás da pressa, do
tédio, do desencanto, do hábito, do medo do ridículo que paralisa
todos nós. Eu hoje não vim aqui para trabalhar, vim estimular o
mistério.
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